Beatriz decidiu morrer
Este post eu dedico para a fantástica Ana Rüsche, amiga de todas as horas e uma das maiores incentivadoras desses rabiscos que insisto em fazer.
Entre as fofocas, reclamações, planos e bolos suíços de ontem à noite aqui em casa, ela disse que gosta do meu estilo. Vocês acreditam? Ana Rüsche, aquela criatura crítica, inteligente e super talentosa, dizendo isso assim, de cara limpa, no sofá da sua casa? Bom, eu não acreditei, portanto posto aqui um texto meio tosco que escrevi no ano passado e que talvez faça a Ana mudar de idéia...
Beatriz decidiu morrer
A mãe na cozinha fazendo uma canja. A Rita Lee no aparelho de som tocando repetidamente o “Vírus do Amor” e “Every breath you take”. Quando uma música termina, o CD pula para a outra, que depois volta para a uma e assim segue enjoado. As sinapses da moça seguem o mesmo e entediante caminho.
Desde às quinze horas, quando recebera o maldito e-mail, a droga da serotonina tinha parado de circular. Só os impulsos elétricos, correndo em círculos como carrossel de um parque de diversões decadente, pareciam persistir.
A linha amarela tinha sido cruzada, disseram. A moça finalmente vira o corpo magro e branquelo que jazia em plena rua. Ao contrário dos filmes de Hollywood, não havia uma multidão em volta do cadáver. Só umas poças de água imunda, restos do temporal da manhã, e uns pedaços de papel encharcado.
A moça, complacente, só conseguia ver os olhos verdes arregalados do corpo. E ele estava nu. Nenhum sinal de roupas ou de balas ou de cortes.
Talvez alguém a tivesse envenenado, pensou. Ou atirado pela janela do vigésimo terceiro andar. Mas não. Nada disso acontecera.
Beatriz tinha decidido morrer. Já tinham lhe dito, quando leram pela primeira vez a mão dela (sem que ela quisesse), que tinha um corte na linha da vida. Ela gargalhara de explodir. A bailarina flamenca, de Sevilla, disse que ela viraria guerrilheira, artista ou algo que transformaria tudo o que ela havia sido até então.
Ela então riu mais e perguntou se isso podia dizer a morte. A bailarina sorriu um sim. Ela deu as costas, tragou um generoso gole de conhaque e pôs-se a dançar uma baladinha. Olhos fechados.
A moça que agora via o corpo magro e branquelo no asfalto da metrópole não sabia disso. E para ela pouco importava. O fato é que Beatriz tinha decidido morrer. E isso era um alívio. Se Beatriz não tivesse morrido, a moça teria que dar cabo à vida dela de um jeito bem convencional. Iria envenená-la com arsênico ou polônio radioativo, sem rastros, ou empurrá-la da sacada do vigésimo terceiro andar; atiraria contra a cabeça dela; usaria o canivete suíço do pai e lhe arrancaria a jugular e partes do pescoço. Mas nada disso precisaria acontecer.
Respirava o ar de chumbo daquela tarde nublada, a moça. Abaixou-se junto ao corpo magro e branquelo e rezou baixinho, fechando-lhe os olhos verdes. Isso fez porque padre não havia -fora católica um dia- e o pastor da igreja em frente pedira trinta reais pelo serviço.
Ela jamais gastaria trinta reais com Beatriz. Essa quantia serviria para pagar algumas cervejas na praça, mais tarde, quando confraternizaria com os amigos como todas as sextas-feiras. Riria, bêbada, fumaria um maço inteiro de cigarros e iria para casa dormir satisfeita. “Não vou ter mais pesadelos”, a moça dizia para seu reflexo na poça ao lado esquerdo do cadáver.
Beatriz tinha decidido morrer, era tudo o que importava. O corpo seguiria para o IML local e, dias depois, seria embarcado para o Rio de Janeiro em um avião de carreira, junto com as malas Louis Vuitton de alguns turistas ingleses.
A moça voltou para casa caminhando paquidermicamente pela rua embaçada. Não sentia frio, dor, pesar, ódio ou remorso. A garoa fina não a incomodava. Nem a fome, nem o pesado cheiro da morte. Ela entrou no prédio antigo, na esquina de uma importante rua do centro velho da capital. Dispensou o elevador e subiu os dez andares sem pressa.
Ainda no corredor sentiu o cheiro da sopa da mãe e ouviu os últimos acordes da Rita Lee, que ainda tocava letárgica no aparelho de som. “O vírus do amor, dentro da gente. Restos mortais, quarenta e dois graus de febre cortante...”.
Não tinha a febre, tampouco o tal vírus do amor. Só havia uns restos mortais e a imagem de um corpo magro e branquelo que não ficaria muitas horas na sua cabeça.
A moça tinha memória curta. Sua vida seria ainda longa demais.
Desde às quinze horas, quando recebera o maldito e-mail, a droga da serotonina tinha parado de circular. Só os impulsos elétricos, correndo em círculos como carrossel de um parque de diversões decadente, pareciam persistir.
A linha amarela tinha sido cruzada, disseram. A moça finalmente vira o corpo magro e branquelo que jazia em plena rua. Ao contrário dos filmes de Hollywood, não havia uma multidão em volta do cadáver. Só umas poças de água imunda, restos do temporal da manhã, e uns pedaços de papel encharcado.
A moça, complacente, só conseguia ver os olhos verdes arregalados do corpo. E ele estava nu. Nenhum sinal de roupas ou de balas ou de cortes.
Talvez alguém a tivesse envenenado, pensou. Ou atirado pela janela do vigésimo terceiro andar. Mas não. Nada disso acontecera.
Beatriz tinha decidido morrer. Já tinham lhe dito, quando leram pela primeira vez a mão dela (sem que ela quisesse), que tinha um corte na linha da vida. Ela gargalhara de explodir. A bailarina flamenca, de Sevilla, disse que ela viraria guerrilheira, artista ou algo que transformaria tudo o que ela havia sido até então.
Ela então riu mais e perguntou se isso podia dizer a morte. A bailarina sorriu um sim. Ela deu as costas, tragou um generoso gole de conhaque e pôs-se a dançar uma baladinha. Olhos fechados.
A moça que agora via o corpo magro e branquelo no asfalto da metrópole não sabia disso. E para ela pouco importava. O fato é que Beatriz tinha decidido morrer. E isso era um alívio. Se Beatriz não tivesse morrido, a moça teria que dar cabo à vida dela de um jeito bem convencional. Iria envenená-la com arsênico ou polônio radioativo, sem rastros, ou empurrá-la da sacada do vigésimo terceiro andar; atiraria contra a cabeça dela; usaria o canivete suíço do pai e lhe arrancaria a jugular e partes do pescoço. Mas nada disso precisaria acontecer.
Respirava o ar de chumbo daquela tarde nublada, a moça. Abaixou-se junto ao corpo magro e branquelo e rezou baixinho, fechando-lhe os olhos verdes. Isso fez porque padre não havia -fora católica um dia- e o pastor da igreja em frente pedira trinta reais pelo serviço.
Ela jamais gastaria trinta reais com Beatriz. Essa quantia serviria para pagar algumas cervejas na praça, mais tarde, quando confraternizaria com os amigos como todas as sextas-feiras. Riria, bêbada, fumaria um maço inteiro de cigarros e iria para casa dormir satisfeita. “Não vou ter mais pesadelos”, a moça dizia para seu reflexo na poça ao lado esquerdo do cadáver.
Beatriz tinha decidido morrer, era tudo o que importava. O corpo seguiria para o IML local e, dias depois, seria embarcado para o Rio de Janeiro em um avião de carreira, junto com as malas Louis Vuitton de alguns turistas ingleses.
A moça voltou para casa caminhando paquidermicamente pela rua embaçada. Não sentia frio, dor, pesar, ódio ou remorso. A garoa fina não a incomodava. Nem a fome, nem o pesado cheiro da morte. Ela entrou no prédio antigo, na esquina de uma importante rua do centro velho da capital. Dispensou o elevador e subiu os dez andares sem pressa.
Ainda no corredor sentiu o cheiro da sopa da mãe e ouviu os últimos acordes da Rita Lee, que ainda tocava letárgica no aparelho de som. “O vírus do amor, dentro da gente. Restos mortais, quarenta e dois graus de febre cortante...”.
Não tinha a febre, tampouco o tal vírus do amor. Só havia uns restos mortais e a imagem de um corpo magro e branquelo que não ficaria muitas horas na sua cabeça.
A moça tinha memória curta. Sua vida seria ainda longa demais.
*** "Papo de surdo e mudo", O Rappa.


2 Comments:
olhe só! oh, obrigada, não é nada disso não sobre mim. sobre ti, tá certo.
o texto acho que pode ser mais trabalhado, tipo, várias gordurinhas - se ficar pela metade, fica foda. Tiraria as referências à Rita Lee e talvez eu brincaria com uma coisa que já faço: peixes tem memória curta, dá para traçar uma metáfora, sei lá. Enfim, só ralando as coisas saem, que nem o "potosi" engasgado em minha garganta... Vai ser "Germania: Ano Due" (sci) o título, decidi, assisti "Roma: Cità Aperta" (sic) do Rosselini, gostei bastante do cara e de suas idéias.
Mas de maneira geral, tá legal, dá para entender bem.
Mande ver!
De resto, aí vai um curtinho fofo.
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SENTIMENTAL
Te imagino em todos os aviões do céu.
Meu aeroporto está lotado.
Augusto de Guimaraens Cavalcanti
in Poemas para se Ler ao Meio-Dia, 7 Letras, 2006.
Ah, esse curtinho é do livro que você vai me emprestar, né? Lindinho mesmo.
Obrigada pelas dicas; é por aí mesmo. Engrenagens enferrujadas demoram um certo tempo para voltarem a funcionar, e olha que nem significa que funcionarão a contento.
Isso de contos curtinhos, sei lá, eu costumava ser boa nisso (agora não venço a mediocridade nem na prosa nem na poesia, duro!) e acho que li muito Poe e Tchekhov no final do ano. Fiquei empolgada!
E perfeito o título! Excelente. Quero ler quando estiver pronto!
Se você curtiu o Rosselini, precisa ver o Franco Zefirelli e o Luchino Visconti que, junto com o Bertolucci, são pra mim os melhores cineastas que a Itália já produziu.
Beijinhos meus, querida! Obrigada pelo carinho e pelas dicas.
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