Hay tomates!

Porque tem coisa nesse mundo.

30.12.06

O último do ano

Gravura do pintor argentino Franco Momo.


Aí vai o último de 2006 só para exorcizar certos demônios que me acompanharam durante boa parte do caminho.


Constatação

Meu mito incaico

(a esperar a divina mensagem

nos labirintos de uma Machu

Picchu solitária)

desafia nuvens de

um sanguinolento céu de maio.

E aqueles teus negros olhos

fugidiços

vêem sempre uma dimensão outra

(intangível),

que nem toda a prata de Potosí

nem a violência do meu

bailado espanhol

jamais conseguirão

conquistar.


*** "You don't know what love is", Chet Baker em "This is jazz".



28.12.06

Ano Novo?

Estou aqui, nessas longínquas terras de São José, curtindo dias extremamente calorentos e razoavelmente calmos. Aproveito para colocar alguma leitura em dia antes de mergulhar de vez na minha dissertação de mestrado. A qualificação está logo ali, saco!
Até o momento, li o delicioso livro do Guzik (vide o post "Coisas da Semana" abaixo), "Cia. de Teatro Os Satyros", na viagem de Sampa até Rio Preto. Também reli meu Neruda e meu Hughes para pacificar certas memórias que surgem sempre que estou por essas bandas de cá.
Dentre as novas aquisições, "A teus pés", da Ana Cristina César, tem tomado quase todo o meu tempo. Maravilha de livro! Foi um perrengue pra achar, vários meses peregrinando pelos sebos de Sampa. Tem também a coletânea do Ítalo Moriconi, "Os cem melhores poemas brasileiros do século", que ganhei da minha mãe de Natal, e uma nova biografia do Che Guevara que ganhei do papai, claro!
Para completar a série, ganhei da minha tia cult uma coletânea fantástica do Gullar, feita pelo Alfredo Bosi, que li na tarde de ontem no café do Cineclube Sesc, antes e depois de assitir dois filmes do Bergman.
Posto então um poema do Gullar sobre o Ano-Novo por ser muito conveniente nessa época do ano e, mais ainda, pra dizer que meu coração continua. Ele sempre continua, apesar de tudo.

Ano-Novo

Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).


Ferreira Gullar, publicado originalmente em "Barulhos", 1987.


*** "Strange fruit", Billie Holiday.

Conexão Houston

Dando continuidade à série "experimentações 2006", segue mais um curtinho, feito numa madrugada dessas de insônia e idéias esquisitas na cabeça.

Conexão Houston

É isso:
fadada a viver solta
no espaço,
como a caixa preta
de um ônibus espacial
- vazio -
Sem dores ou ânsias.
Chuva somente. Não de
meteoritos
mas de estrelas
sem qualquer cadência.


*** "I cover de waterfront", Billie Holiday.

22.12.06

Blablablá de final de ano

Finais de ano me deixam deprimida. Acho o Natal uma manifestação hipócrita de culpa coletiva, daí os presentes e esse tal de espírito natalino que dizem que caminha por aí nessa época do ano, cuja função nada mais é do que aquela de nos fazer esquecer de que somos cronicamente maus, arrogantes e estúpidos.
O mundo vai mal, muito mal, portanto nada de poemas hoje, mas sim a letra de uma música cantada pelo Ney Matogrosso com o Pedro Luís e a Parede. Curiosamente se chama "Jesus", coisa pra qualquer entendedor medíocre.
E pra você que acredita, somos todos filhos de Deus, só não falamos a mesma língua.

Dizem que Jesus morreu na cruz
mas tive com ele na Dutra, em Queluz
levava na cabeça um tabuleiro de cuscuz
Cocada de céu, cocada de luz.
Jesus, Jesus...

Galo cantou, Jesus
Pneu furou, Jesus
Vestibular, Jesus
Atravessar o mar, Moisés
Sobre as ondas com os pés, Jesus
Como Jojó de Olivença, Zulu
No mar da África do Sul
Jesus, Jesus...

Fazenda do Seu Jesus,
Fazenda do céu, Jesus
Tem cachoeira, fonte de água viva
Também faz sol, chuva quando precisa
No São Francisco, piracemas de alegria
Belém-Brasília, feijãozinho da Dona Maria
Jesus, Jesus...

Tatu andou, Jesus
Tatuapé, São Paulo
Bicho pegou, Noé
Bicho-de-pé, Jesus
Faltou a luz
Jesus, Jesus...

Vamos tirar Jesus da cruz,
Vamos tirar, vamos tirar
Vamos tirar Jesus da cruz
Nós vamos tirar Jesus da cruz porque o rapaz tá pregado naqueles pedaços de pau
há mais de 2000 anos
Vamos deixar ele com os pés e as mãos livres que ele vai pular e dançar,
virar cambalhota e fazer muito melhor, mas é muito melhor
Ele vai no lombo do cavalo galopando pelo espaço
(...)

***Música de Gustavo Valente, Lucas de Oliveira, Dado, André Pessoa, Rodrigo Cabelo, Beto Valente, Pedro Luís.

In: Vagabundo. Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede. Universal Music, 2004.
CD animal!

12.12.06

Da anestesia

Esse poema é de alguns meses atrás. Já foi discretamente modificado, mas confesso que tenho uma predileção estranha por ele assim como está, apesar de ser bem adolescente. Acho que é porque ele me faz lembrar de uma experiência bastante bizarra da minha vida.
A Manu é a única pessoa que gosta dele além de mim. Então dedico o post pra ela, criatura fofíssima e de longe uma das melhores aquisições desse conturbado 2006.
Da anestesia
Diz sempre
que a vida é um contrato
entre cervejas, sorrisos falsos
e a atitude xilocaína
Posa de conquistador
(porque a vida é um contrato)
e tateia as cláusulas
nos corpos das mulheres
Entre as muitas coxas se afunda
e sorri, falso, com olhar xilocaína
As cláusulas, herméticas,
estão nos corpos das muitas mulheres
Mas ele é todo xilocaína
(e sempre diz que a vida é um contrato
enquanto as cláusulas
perdem –se nos lábios, tintos,
das muitas mulheres).
*** "Wild horses", The Rolling Stones.

11.12.06

Coisas da semana

Essa semana promete. Há vários eventos culturais rolando, todos imperdíveis. Vamos à programação:
  • Na quinta-feira, 14 de dezembro, tem o relançamento do livro "Zona Branca", do Ademir Assunção, lá no Espaço dos Parlapatões da Praça Roosevelt.
  • Na sexta-feira, 15 de dezembro, o delícia do Ivam Cabral vai lançar seu livro, "Quatro textos para um teatro veloz" no Espaço dos Satyros 01, a partir das 19:00 horas. No mesmo horário e batlocal, o maravilhoso Alberto Guzik lança o seu "Companhia de teatro Os Satyros", ambos pela Imprensa Oficial do Estado. Haja cerveja!

Eu estarei por lá, apareçam também. E que Deus ilumine a Praça Roosevelt, amém.

9.12.06

Nas asas do desejo


"No fim de tudo, pode-se dizer sem exageros que sempre resta o desejo." Sigmund Freud.
Memória se
(...)
E seu perfume
rio riso colorido
escorrendo
sobre o corpo
sopro e calor.
Memória se
deseja. O resto,
se ouça ou veja.
Frederico Barbosa
In: Na virada do século- poesia de invenção no Brasil. Landy Editora.
Tá, o mundo está pegando fogo e isso me incomoda muito, mas hoje eu quero dizer que tenho desejo. E memória. Ponto.
*** Qualquer música da Sade.

6.12.06

Praça Roosevelt

Faz alguns meses que freqüento assiduamente a Praça Roosevelt, sempre muito bem acompanhada por amigos (as) queridíssimos (as) como a Manu, a Ana Rüsche, o Gê, o Fábio "Snoop" Vargas, a Senhora Vargas e outros tantos fofos. Por lá tomamos nossas cervejas, conversamos sobre literatura, sobre a vida -a nossa e principalmente a alheia- e nos divertimos muito com os atores do Satyros, sempre após assistirmos alguma peça.
Pois bem, foi depois de ver "A vida na Praça Roosevelt" que escrevi este poema (a peça é excelente e merece ser vista mais de uma vez. Recomendo).
Quanto ao poema, não coloquei um título, até porque assumo que dar títulos para poemas não é o meu forte. Tenho calafrios só de pensar nisso. Aceito, portanto, sugestões e críticas. Não tenham medo.

Na ribalta escura
sons passos trôpegos
carregando
flutuantes lanternas
no espaço vazio.
A mulher vestida de
noiva- a barra vermelho-
Marte- esperneia
naquele vácuo.
Ela abraça o abismo
laranja. E chora. Chora.
Lágrimas cítricas,
lágrimas ácidas,
lágrimas de mulher.
O filho morto - decepado-
jazia no centro da praça
(o ventre em náuseas,
queria alcançá-lo)
O abraço tão mais curto,
a ausência
- enorme- ali tão perto
E ela chora.
Lágrimas cítricas,
lágrimas ácidas,
lágrimas de mãe.
Aqui a morte tem gosto de laranjas.
*** "Every breath you take", versão acústica, na voz da Rita Lee. É isso ou eu me jogo daqui do terceiro andar: trabalhos de mestrado podem causar traumas irreversíveis na sua vida.

Langston Hughes smells like teen spirit

Langston Hughes é um dos meus poetas favoritos. Descobri sua poesia no auge dos meus dezesseis anos, quando passei um mês em Los Angeles e decidi ir até Seattle conhecer o Nirvana e o grunge movement. Não me lembro exatamente como gastei, em um mês, quase toda a grana que havia economizado trabalhando como vendedora no ano anterior (talvez os impulsos de adolescente descobrindo a vida), mas resolvi que iria até Seattle de qualquer jeito.
Passei longos dezoito dias viajando naqueles ônibus da Greyhound cheios de gente estranha e trabalhava de garçonete e do que mais aparecesse quando o dinheiro acabava. Foi em uma dessas paradas forçadas, trabalhando como garçonete em um café em Carmel, que fui apresentada à poesia de Hughes.
O lugar ficava em uma paradisíaca cidade ao norte de L.A, com uma vista incrível para o Big Sur, e era freqüentado mais pelos moradores da cidade do que pelos inúmeros turistas que lotavam as ruas nos finais de semana.
Todos os dias, um senhor muito emburrado aparecia sempre no mesmo horário trazendo um livro sob o braço esquerdo e um chapéu engraçado na mão direita. Sentava-se à mesma mesa, olhava para mim e eu entrava e pedia um expresso com duas gotas de conhaque para Penny, a dona do café.
Nós dificilmente nos falávamos, mas tínhamos uma certa cumplicidade que tornava a comunicação eficiente apesar de econômica. Ele era um senhor distinto, professor aposentado de literatura norte-americana da UCLA, o que eu só saberia no meu último dia de trabalho.
Na época, meu cabelo enorme, sempre preso com um grosso pincel, e as camisas de flanela xadrez por baixo do avental verde certamente me davam um ar displicente. Obviamente, o compenetrado senhor não tinha o menor interesse em conversar com uma mocinha latino-americana mal vestida e em busca do "Smells like teen spirit". Da minha parte, eu tampouco queria atrapalhar sua leitura, seu café e sua aposentadoria.
Durante nove dias a cena se repetiu até que, no meu último dia, ele saiu mais cedo deixando uma gorjeta generosa e um livro sobre a mesa. Era uma quinta-feira calorenta e o café estava cheio. Só notei o livro depois, quando fui limpar a mesa para uns franceses que esperavam por ela.
Sem pestanejar, levei-o até a Penny e disse que o distraído senhor o esquecera. Foi então que eu soube que ele era professor e que morava na cidade desde que se aposentara.
No final do dia, depois que arrumei a tralha toda que trazia comigo, sentei com a Penny para conversar um pouco. Sentadas à uma mesa na calçada, ela pediu licença e disse que iria ligar para o professor para avisá-lo sobre o livro. Levantou-se, deixando o exemplar sobre a mesa. Eu aproveitei a deixa, examinei a capa e abri na primeira página. Foi então que notei a dedicatória para mim: "Young lady, this book will protect you from America. Have a nice trip".
Nunca soube ao certo como ele tinha descoberto que eu estava indo visitar o Kurt Kobain, mas o livro me protegeu mesmo da América. Tenho memórias maravilhosas dessa viagem, lia Hughes e olhava o Pacífico de dentro dos ônibus mal-cheirosos da Greyhound. 1995 é um ano difícil de esquecer.
Depois da explicação sentimentalóide acima, posto aqui um dos meus poemas favoritos do Langston Hughes:

I, Too, Sing America

I, too, sing America.

I am the darker brother.
They send me to eat in the kitchen
When company comes,
But I laugh,
And eat well,
And grow strong.

Tomorrow,
I'll be at the table
When company comes.
Nobody'll dare
Say to me,
"Eat in the kitchen,"
Then.

Besides,
They'll see how beautiful I am
And be ashamed--

I, too, am America.

Incendiária

Eu gosto de literatura em geral. Mais ainda de poesia. Isso não significa que eu entenda de fato alguma coisa. Não, longe disso. Minha relação com ambas (que na verdade são uma só) é muito mais passional e intuitiva do que qualquer outra coisa.
Ainda assim, isso não me impede de dar pitacos na produção literária alheia e tampouco de me arriscar a escrever coisas (invariavelmente) ruins, tal qual esse poemeco abaixo.
Ele é resultado de uma das muitas "experimentações" que tenho feito em 2006, anos após um conturbado divórcio da caneta- amores antigos às vezes se tornam irresistíveis para mim.
Deixo as críticas para os amigos e curiosos que eventualmente passarem por aqui. Au revoir.

Incendiária

Noites amarelas, repletas de gin
morfina, azeitonas
Um boteco de esquina
com seus papos bêbados
Penso na cidade que resfolega em lama imunda
Os automóveis de luxo
se espalham pela Rua Colômbia
(têm tração nas quatro rodas)
Na marginal os espigões,
suas janelas que não abrem
O Pinheiros e uns barquinhos de papel
colocados entre as pontes
Os ônibus passam, apressados a caminho do nada
Motoristas esquivando-se da rush hour,
cuspindo metade do PIB da Bolívia
Os manifestantes de sempre vestidos
de índios do velho oeste
A senhora filantropa flutuando em borbulhas de champagne,
comprando caviar
Seu perfume francês tão mais forte
que as cinzentas águas do rio de enxofre
"Tia, me dá um trocado?"
(a indiferença lisérgica)
A América Latina em chamas
a metrópole, arrogante, sempre
abusando do filtro solar.
*** "The song is you", Chet Baker. In: 1959 Milano Sessions. Imperdível!

5.12.06

Enlouquecendo na era do jazz


"As pessoas são como os almanaques. Você nunca encontra o que procura, mas sempre vale a pena dar uma olhada."
Zelda Fitzgerald.
A escritora e artista plástica Zelda Sayre Fitzgerald, esposa do "Great Gatsby" Scott Fitzgerald, era uma mulher sensacional. Pessoalmente, embora tenha uma inveja branca dessas mulheres meiguinhas e com ares de blasé, confesso que admiro mesmo aquelas cheias de personalidade, autênticas, sempre muito à vontade na própria pele. Talvez seja porque eu mesma tenha crescido muito perto de mulheres assim.
Apesar da esquizofrenia e do alcoolismo, Zelda era uma mulher muito à frente de seu tempo e debochava ruidosamente da alta sociedade norte-americana e francesa (os Fitzgerald viveram alguns anos na França). Mulher de personalidade fortíssima, costumava ser o centro das atenções nos eventos sociais muito mais pela excentricidade e pelo humor inteligente e ácido do que por ser a esposa de Scott.
Aliás, o casamento de Zelda com o escritor foi marcado por discussões, bebedeiras homéricas e ciúme doentio de ambas as partes. Scott a amava, mas não aceitava as opiniões sempre incisivas de Zelda, motivo pelo qual chegou a trancá-la por longos períodos no próprio quarto para evitar que ela se envolvesse em casos extra-conjugais, fato este muito comum no casamento dos dois. Ele também tolhia os dons artísticos de Zelda que, além de exímia pianista, era artista plástica e escritora.
Alguns dos biógrafos de Zelda afirmam que são dela trechos inteiros do livro de contos "Tales of the jazz age" e de outras obras do escritor, inclusive "The Great Gatsby". Sobre a suspeita de plágio, ela se manifestou uma única vez, em uma das inúmeras cartas trocadas com o marido durante os vários períodos em que passou internada em sanatórios.
"It seems to me that on one page I recognized a portion of an old diary of mine which mysteriously disappeared shortly after my marriage, and also scraps of letters which, though considerably edited, sound to me vaguely familiar. In fact, Mr. Fitzgerald — I believe that is how he spells his name — seems to believe that plagiarism begins at home.”
Zelda, enfim, era uma mulher incrível e que trouxe brilho para a vida de Scott Fitzgerald. Contudo, como Sylvia Plath, Zelda de certa forma foi sufocada pelas inseguranças e pelo machismo do marido.
Infelizmente, desde os longínquos anos 20, o universo masculino parece não lidar muito bem com mulheres passionais e decididas como ela. Zelda não era alguém superficial. Essa que aqui vos escreve não suporta pessoas e situações superficiais, daí o porquê da admiração por pessoas como ela.
Eu enlouqueço como a Zelda. Semanalmente. Todavia, enlouquecer não é mais nenhum sacrifício nesses tempos supostamente "pós-modernos", onde reina a volatilidade e a fragmentação. Definitivamente era mais divertido enlouquecer na era do jazz.
***Recomendo fortemente as músicas da Nina Simone, uma mulher igualmente fantástica. Atenção especial às essencias "Do nothin' till you hear from me", "My baby just cares for me", "Gimme" e "Just in time", esta última uma das minhas músicas favoritas.

alive-history
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