Hay tomates!

Porque tem coisa nesse mundo.

16.12.08

Procura-se Susan desesperadamente

Aproveitando que tia Maddie está nessas terras tupiniquins e, principalmente, inspirada por um post do Victor da Rosa no seu Notícia de três linhas, venho por meio dessa postagem pedir que os leitores se manifestem! Não, vocês não vão ganhar uma camiseta promocional, nem pagar dois posts e levar três.
Embuída pelo espírito natalino, eu queria mesmo saber quem são vocês que se dedicam a ler os tomates plantados nesse canteiro e agradecê-los. Muito e sinceramente. Afinal, antes de certas parafernálias de alta espionagem instaladas por aqui, eu jurava que só meus amigos - e alguns inimigos, óbvio! - liam essas baboseiras.
Enfim, manifestem-se!
*** "Sem saudade de você", Carlos Lyra.

15.12.08

Deixem o poetinha falar

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.


O haver, Vinícius de Moraes.

*** "Hitler in my heart", Anthony and the Johnsons.

11.12.08

Sobre as conversinhas femininas

Mulheres falam. Falam muito. Quase sem parar. Isto é um fato indiscutível, claro. Mas sobre o que falam? Bom, dentre uma infinita - e muitas vezes supérflua - gama de assuntos, falamos sobre o que poderia ter sido e não foi. Segue abaixo um exemplo. E ele tem a ver com o que? Tchan, tchan, tchan: surprise! O amor (ou algo similar como chocolate, sapatos e cosméticos. Nunca sabemos bem em que patamar estão as prioridades de um cromossomo X).
Mas, antes que vocês me acusem de fissura gratuita pelo vocábulo aí acima, já me desculpo e aviso que o exemplo é meramente ilustrativo. E hilário. Leiam.
Y diz: vc. sabe do que se trata? isto é, entendeu aquela porra de e-mail que ele me mandou?
Carol diz: acredito que os caras mais inteligentes podem ser os mais asnos em termos de amor, Y! e esse cara não sabe definitivamente nada de amor. até pq. eu duvido que ele tenha vivido um. aliás, acho que a prova de que o amor existe é que esse fulano, mesmo sendo tão culto, foge dele o tempo todo. e por que? medo. ele sabe que vai sucumbir e que, se ele abrir a janela, o negócio vai inundar a sala, o quarto, a cozinha e depois a casa toda e nenhum dos livrinhos que ele tem na estante vai conseguir explicar qual a origem daquilo [risos satisfeitos]. é um mané, em resumo.
Y diz: mas não entendo por que foge! cara, a minha questão é: nós éramos claramente pra estar juntos! e ele correu disso.
Carol diz: viu só? fez isso pq. é um idiota! ou pq. sabe que nesse terreno vc. ganha dele fácil, pq. tem mais vivência; sabe mais do que ele sobre o amor pq. o vivenciou mais vezes, com muitas pessoas e, sobretudo, porque vc. sabe também o que é o desamor. e ele? dããã. fica achando que os fragmentos do barthes encerram o assunto! ou que o advento de uma sociedade deleuziana vai resolver o problema dele! [risos sarcásticos]. e vc. ainda leva esse cara a sério! eu juro que não entendo.
Y diz: eu o levo a sério porque somos muito especiais um pro outro e, pô, eu tenho dificuldade de achá-lo um idiota. esse é o problema [riso amarelo].
Carol diz: então amém! que assim permaneçam. mas, mudando de assunto, estou a fim de dançar. a gente bem que podia marcar uma baladinha dia desses, né? esses nossos cafés são legais, mas acho que precisamos de algo mais hardcore. terapia de choque mesmo [risos entusiasmados].
Y diz: é verdade! precisamos armar um esquema "daqueles" [risos satisfeitos]. e nem te conto o que fiz no domingo [risos maquiavélicos]... você vai me matar!
Carol diz: cooonta!
Y diz: então...
*** "Pen and notebook", Camera Obscura.

6.12.08

Labiríntico

Robert Doisneau




Foi pela manhã. Ouvi a melodia chinesa, por certo muito estranha; aquela que ele cantarolava nas noites bêbadas. Há tempos não a ouvia e, por conta disso, a segunda-feira me pareceu muito mais branca do que o normal - justo a mim, que cultivo com cuidado essa contemplação diária dos céus nem sempre claros da metrópole.
Queria dizer que ele me fez feliz. Mas só por um quarto de dia. Ainda que ele nunca saiba disso e que não fosse essa sua intenção. Alegra-me muito saber que ele luta para cultivar aquela amizade, posterior, um tanto plastificada e sem chance alguma de se desenvolver naturalmente.
Contudo, se eu pudesse, até teria sonhado que me contento com os sorrisos de verão, o rosto de marionete e os seus cabelos ressacosos de sinapses tardias. Ele. Queria nada além do que a vida que ele não viveu, sabem?
Deve estar a trabalhar como um insano agora. As folhas em branco, o relógio contando as pulsações, a idiotice das telas azuis. Eu também deveria estar, mas há essa estranha melodia chinesa cadenciando cada passo meu. Estou nua. Anseio muito vê-lo, ainda que bêbado, sujo, insultando cada saia e cada vermelho que interpela o seu caminho.
Não gosto de conjecturar a respeito, mas me iludo pensando que essas não-atitudes dele podem ser o indício de algo que bagunça o seu avesso e que ele, absolutamente, jamais quis sentir. Entendo-o perfeitamente, porque também não me agrada sentir aquela ausência, os dias todos, sem conhecer mais do que sua superficialidade.
Partilhamos algumas noites, é certo, e nelas disse muito a meu respeito. Os olhos de ônix, porém, ainda são um mistério que provavelmente não desvendarei. E sei que ele é um desses meninos insolentes que se recusam a olhar adiante e deixar os brinquedos lá atrás. Porém minhas retinas ainda vêem, entre as diversas miríades do caminho nebuloso que tecemos, outras paisagens.
A inteligência dele me causa um prazeroso espanto; a ironia também. Mas gosto mesmo é dos seus sorrisos e daquela sua boca. Ainda mais quando ela rescende a vinho.
Entristeço-me em pensar que, durante todo o tempo, ele me teve como um lugar-comum, uma louca sem caráter, imbecilóide e dona de olhares turvos. Culpo-me por ter representado impecavelmente o papel dessas manequins de vitrine - quase um peep show - e por dizer sempre bobagens na sua presença. Atrapalho-me. Não tenho como explicar os motivos. São tão meus.
Tantas insanidades! E há muita tragédia nessa história, sabemos. Ele pesa ainda sobre minhas carnes. Sabe disso. Eu sei. Só não sabe que outros me cobiçam. Bobos. Todos. Até poderia desejar outros sorrisos, olhos e bocas, mas isso seria como exigir que um marinheiro deixasse de partir. Os marinheiros beijam e vão-se embora. Todos os dias. Em cada porto uma mulher os espera. Os marinheiros sempre beijam e vão-se embora.
Estúpida! Alimento uma esperança burra de levá-lo comigo para algum lugar; apresentá-lo aos carniceiros do meu passado. É cedo. Tão cedo. Ainda é outubro e ele já não fica mais parado entre as duas palmeiras da minha rua. Talvez essa amizade plastificada rompa as bolhas. Aguardo? Acho que tornei a querê-lo, não sei. Desejo? Muito. Quase. A todo momento. Na segunda bem mais do que ontem: ouço a melodia chinesa.
O avesso de pandora. [Um certo romance há muito na gaveta. Interminado].
*** "A piece of my mind", EBTG.

3.12.08

Diálogos - II

C.,

Há um tempo, separei muito claramente para mim as funções de determinados "amigos". São pouquíssimos aqueles a quem posso me abrir. Não descobri isso de cara. E não é que todos esses com quem eu não posso me abrir não se importem comigo - ou que eu não me importe com eles - mas simplesmente não são capazes de se doarem o suficiente a ponto de quererem ouvir - porque ouvir vai muito além de captar as informações, ouvir é tentar escutar o mundo com a sensibilidade que é do outro, e não nossa; com os valores que são do outro, não os nossos -, e, ouvindo, de posteriormente ajudarem - e ajudar não é resolver o problema, mas antes de tudo expor o nosso ponto de vista sobre o que se ouviu, mas respeitando o ponto de vista do outro, e respeitar o ponto de vista é também respeitar os limites, respeitar a sensibilidade alheia, mesmo que os limites não sejam os nossos, e mesmo que não concordemos plenamente com eles.
Não descobri de cara que não deveria me abrir pra determinados "amigos". Antes, eu precisei me magoar inúmeras vezes, porque alguns simplesmente não ouviam muito - sabe aquele lance de não prestar nunca atenção ao que você fala -, outros só zoavam - e não por mal, era o jeito deles -, outros me deixavam mal - não por serem sinceros ou exporem opiniões divergentes, mas por me diminuírem, por me enquadrarem, erradamente, em coisas que eu não sou.
Dessa forma, passei a me preservar mais. Não é que eu não mencione, vez ou outra, coisas para estes amigos, mas tomo muito mais cuidado ao falar e principalmente sobre como falar, porque sei que isso pode sempre se voltar contra mim. Posso ficar mal por não receber o retorno que eu esperava. É preciso, então, saber o que se pode esperar de x e x pessoa.
Não necessariamente eles são apenas "amigos de mesa de bar". Ou melhor, podem ser "amigos de mesa de bar" e o "bar" não é sempre um bar, mas uma rua, um cinema, qualquer lugar. Porque o que define essa colocação "mesa de bar" é a superficialidade do contato. E ultimamente venho saturado de mesas de bares, isto é, de pessoas que não estão dispostas a ter uma troca mais profunda comigo.
É quando esses amigos perdem - ou reduzem - sua importância em nossas vidas. E isto é, na verdade, a "resposta" que posso dar. Não se trata de elaborar um troco, uma vingança, mas simplesmente de compreender o que eu ganho com x e y situação.
[...] Outro dia, você me enviou um e-mail dizendo que não deixaria de esperar que as coisas fossem melhores - ou algo como. Eu li, e entendo, e respeito, mas temi, e temo por tudo o que disse acima, a dor que isso possa lhe causar.
Eu estou aqui. De verdade. Às vezes imerso nas minhas angústias, mas você pode contar comigo. E isso, entenda, é raro. Desculpe bater nesta tecla, mas: não se pode esperar muito das pessoas, não se pode esperar muito da vida.
M.
*** "Mr. Tough", Yo la tengo.

1.12.08

A arte do engano


You know when you see T-shirts piled up in a clothes shop, beautifully folded and colour-coded, and you buy one? It never looks the same when you take it home. It only looked good in the shop, you realize too late.
High Fidelity, Nick Hornby.
*** "Summer sun", Koop & Yukimi Nagano.

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