Hay tomates!

Porque tem coisa nesse mundo.

6.12.08

Labiríntico

Robert Doisneau




Foi pela manhã. Ouvi a melodia chinesa, por certo muito estranha; aquela que ele cantarolava nas noites bêbadas. Há tempos não a ouvia e, por conta disso, a segunda-feira me pareceu muito mais branca do que o normal - justo a mim, que cultivo com cuidado essa contemplação diária dos céus nem sempre claros da metrópole.
Queria dizer que ele me fez feliz. Mas só por um quarto de dia. Ainda que ele nunca saiba disso e que não fosse essa sua intenção. Alegra-me muito saber que ele luta para cultivar aquela amizade, posterior, um tanto plastificada e sem chance alguma de se desenvolver naturalmente.
Contudo, se eu pudesse, até teria sonhado que me contento com os sorrisos de verão, o rosto de marionete e os seus cabelos ressacosos de sinapses tardias. Ele. Queria nada além do que a vida que ele não viveu, sabem?
Deve estar a trabalhar como um insano agora. As folhas em branco, o relógio contando as pulsações, a idiotice das telas azuis. Eu também deveria estar, mas há essa estranha melodia chinesa cadenciando cada passo meu. Estou nua. Anseio muito vê-lo, ainda que bêbado, sujo, insultando cada saia e cada vermelho que interpela o seu caminho.
Não gosto de conjecturar a respeito, mas me iludo pensando que essas não-atitudes dele podem ser o indício de algo que bagunça o seu avesso e que ele, absolutamente, jamais quis sentir. Entendo-o perfeitamente, porque também não me agrada sentir aquela ausência, os dias todos, sem conhecer mais do que sua superficialidade.
Partilhamos algumas noites, é certo, e nelas disse muito a meu respeito. Os olhos de ônix, porém, ainda são um mistério que provavelmente não desvendarei. E sei que ele é um desses meninos insolentes que se recusam a olhar adiante e deixar os brinquedos lá atrás. Porém minhas retinas ainda vêem, entre as diversas miríades do caminho nebuloso que tecemos, outras paisagens.
A inteligência dele me causa um prazeroso espanto; a ironia também. Mas gosto mesmo é dos seus sorrisos e daquela sua boca. Ainda mais quando ela rescende a vinho.
Entristeço-me em pensar que, durante todo o tempo, ele me teve como um lugar-comum, uma louca sem caráter, imbecilóide e dona de olhares turvos. Culpo-me por ter representado impecavelmente o papel dessas manequins de vitrine - quase um peep show - e por dizer sempre bobagens na sua presença. Atrapalho-me. Não tenho como explicar os motivos. São tão meus.
Tantas insanidades! E há muita tragédia nessa história, sabemos. Ele pesa ainda sobre minhas carnes. Sabe disso. Eu sei. Só não sabe que outros me cobiçam. Bobos. Todos. Até poderia desejar outros sorrisos, olhos e bocas, mas isso seria como exigir que um marinheiro deixasse de partir. Os marinheiros beijam e vão-se embora. Todos os dias. Em cada porto uma mulher os espera. Os marinheiros sempre beijam e vão-se embora.
Estúpida! Alimento uma esperança burra de levá-lo comigo para algum lugar; apresentá-lo aos carniceiros do meu passado. É cedo. Tão cedo. Ainda é outubro e ele já não fica mais parado entre as duas palmeiras da minha rua. Talvez essa amizade plastificada rompa as bolhas. Aguardo? Acho que tornei a querê-lo, não sei. Desejo? Muito. Quase. A todo momento. Na segunda bem mais do que ontem: ouço a melodia chinesa.
O avesso de pandora. [Um certo romance há muito na gaveta. Interminado].
*** "A piece of my mind", EBTG.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

chego em são paulo dia 12... ou 11... quero ficar perto de vc... nem que seja para ser feliz por 1/4 de dia...


amo e a saudade de desfavorece... às vezes... pq amo demais!!!
saudade até sexta...

depois saudade de novo.
=***

thá

sábado, dezembro 06, 2008 7:42:00 PM  
Blogger Ruy Vasconcelos said...

"ele pesa ainda sobre minhas carnes"

literatura se escreve assim, ao q. tudo indica.

very good. out of time, baby. low key. pode-se ler este seu texto ouvindo 'bell bottom blues' with derek and the dominos e todas aquelas guitarras heróicas e a harmonia vocal rascante, desesperada: 'i don't wanna fade away'. amar é mesmo uma porra duma tragédia fodida.

mas q. outro jeito?

segunda-feira, dezembro 08, 2008 8:40:00 PM  

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