Hay tomates!

Porque tem coisa nesse mundo.

24.6.08

Uma vaca cosmopolita

* Os poetas Giancarlo Huapaya e Rodrigo Flores (segundo plano), durante o festival Tordesilhas.

Primeiro o polissexualzinho Giancarlo Huapaya Cárdenas - Gianca - publicou o trabalho do Coletivo Vacamarela na Lapsus, collage editorial peruana. Link aqui.

* Os poetas/tradutores Fábio Aristimunho Vargas e Joan Navarro.

Agora foi a vez do queridíssimo Joan Navarro publicar alguns poemas dos membros do Coletivo Vacamarela na sua prestigiada Séria Alfa (link aqui). Neste número 38, a revista eletrônica editada pelo poeta e professor de filosofia valenciano trouxe alguns poemas das vaquinhas, bem como suas respectivas versões em espanhol e catalão.

A vaca começa a sair do brejo e ganhar o mundo! Muuuuu!

18.6.08

Paulo Moura


É advogado e mestre em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da Universidade de São Paulo. Tem poemas publicados pela revista FNX da Academia de Letras da referida faculdade. É co-fundador do coletivo Vacamarela, entidade que edita o jornal de literatura contemporânea O Casulo e organiza a FLAP!.
Paulo é um precursor da poesia alheia [veja o manifesto completo aqui].
Querida

você tem razão,
isso aqui acaba sendo
um exercício escolástico,

às vezes a gente até sabe
que está errado,

mas ainda assim
vamos discutindo
pelo gosto

de discutir.
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De Paris
se ainda houver alguém,
essa mensagem é só para dizer
que este é meu último dia
de paris - espero que o último
com esse maldito teclado.
balanço? não, daqui não
sairá um romance nem
um poeminha sequer.
baudelairianamente falando,
andei por toda paris.
cruzei-a de ponta à ponta:
todos os meios de transportes
(quer dizer, menos barco).
talvez essa seja minha maior impressão,
que mais que lidar com paris,
tive que lidar comigo mesmo.
quando a boca cala,
sobra mais tempo
para mente inventar coisas.
gostei da bagunça em meio a toda
ordem meio clássica, a toda a "razão".
paris muda, disse baudelaire
-errou. paris quase não muda.
o que muda é a sua periferia.
muito rica, com todas as
contribuições possíveis,
na paris que todos conhecemos
ouve-se um pouco de tudo.
menos francês...
(ainda há algumas horas para flanar).
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Mágoas

se foi-se é foice,
então, cálice,
digo, calo-me
e digo
que é criativo
mas não inovador.
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O que é sentido?

o que é sentido?
juro que jamais
entendi essa crítica.
como disse o octávio paz,
as imagens
não nos levam a outra coisa
como acontece com a prosa,
mas nos colocam diante
de uma realidade
concreta...
orações e frases são meios.
a imagem não é meio;
sustentada em si mesma,
ela é seu sentido.
o poema não explica
nem representa:
apresenta...
a imagem não explica:
convida-nos a recriá-la
e, literalmente,
a revivê-la.
era só isso.

13.6.08

Rafael Daud


Rafael Rocha Daud nasceu em São Paulo. Bacharel em Direito por acidente, ex-burocrata e atual psicanalista. O mais importante sobre ele: sempre teimando em fazer literatura. Atende no http://homelupus.weblog.com.pt/.

Stardust

Embora escorra pó brilhante das galáxias
pelos meus cabelos
Embora os bárbaros guerreiros invejem
minha roupagem vagabunda
E ainda que a chuva alague o país
Serei o manco, o manco
E às vezes também o gago

Espera

Telefono para meu amante; ele não está
Ou não quer me atender.
Sei que ele se culpa por me
deixar na mão
ou por demonstrar um desprezo que
não sente.
Planeja transfigurar sua falta
tratando-me com decoro;
Promete, sem que eu o saiba,
compensar-me, cumular-me
com bens que julga possuir
(é mesmo uma prova de que os possua).

Devo, no entanto, ficar atenta,
presa a qualquer sinal
que indique o momento preciso de seu arrependimento.
Poderei então, calmamente, transmitir-lhe o inofensivo da situação
e prometer-lhe, mentindo, que tudo permanece como antes.

Due scene

I

Teu cabelo dourado
me assombra; fosse antes vermelho,
de um vermelho impossível nesta noite fria,
que nos chama ao calor do pub fechado

onde espero, após a longa e tediosa promessa,
ouvindo bandas tocadas em timbre agudo, original,
feita ainda com o vento sibilante em nossos ouvidos,
quando à porta fechada nosso desejo tinha pressa;

agora sei que o acaso não nos favorece,
pois trabalha firme por encontros casuais
e o nosso não teria sido um encontro casual.
Não posso chamá-la, Níobe, e o nosso amor arrefece.

II

Adoraria ter um filho
Amanhã temos que acordar cedo
Hoje escolhi um bom lugar pra sentar, ao seu lado
Você fica tão bonita quando fala

O inconsciente não pode ser determinado
A segurança não é uma preocupação
Pelo menos vocês conseguem fazer alguma coisa com isso
A Virgem costurando sapatinhos de lã para o menino Jesus

Estive em Nova York e não ouvi nada parecido
Eu não estou dizendo que deva ser assim
Ele vive me perguntando o que fiz com ele
mas quem não consegue mais dormir sozinha sou eu

A dança exige dedicação constante
Viemos só nós hoje
A cerveja não está gelada
A noção de causa não está resolvida na filosofia

je crains qu'il soit trop tard para voltarmos
Duas vezes na semana é demais
Uma superfície límpida, clara
Você não disse que gostava?

Posso emprestar-lhe o carro, se você precisar
Penso que hoje é segunda-feira, não é mesmo?
Ele vive me perguntando o que fiz com ele
mas quem não consegue mais dormir sozinha sou eu

10.6.08

Maiara Gouveia

Maiara Gouveia nasceu em 1983, em São Paulo. Seus poemas e artigos sobre cinema e literatura estão espalhados em sites da internet, revistas e jornais. Em 2006, foi finalista do Prêmio Nascente, com o livro de poemas O Silêncio Encantado. A obra inaugural sofreu alterações e hoje se chama Pleno Deserto.
Mantém o blog A Certeza de Fazer o Mal (http://maiaragouveia.blogspot.com) e espera, ansiosamente, a publicação de seu primeiro livro: virá em breve.
No Sumidouro
Ao redor do quarto
migra um cortejo de aves. Não vemos
pois estamos fechados.
Ao redor do quarto
um barco repousa em um mar sem ondas. Não vemos
pois estamos partindo.
Ao redor do quarto
baleias abertas e peixes mortos cobrem a angra. Não vemos
pois estamos sangrando.
Porque estamos sozinhos não vemos
suicidas engolfados nas brânquias tóxicas
dos cardumes. Não vemos
a morte solitária dos corais. Não vemos
a embarcação vazia permanecer
no silêncio das águas. Não vemos:
pois estamos no escuro.
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Outra Vez o Corpo
O fruto da bondade
não explodiu nesse solo rude.
Somos o Corpo e outra vez o corpo.
Animal divino que saqueia e fere,
cobre de lírios esse ventre estrangulado.
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Migrar
Matrimônio de vogais: agora nada.
Fica a distância entre o corpo e a palavra.
Sequer a marca do sol ou da sarça.
Faróis azuis na memória, e mais nada.
Além do mar, o tempo não traga.
Gaivotas mergulham sem regressar ao quadro.
Nenhum nome persiste além do enigma: migrar sempre.
E esta noite é tudo o que temos.
Toda palavra é precária: flor, pauta de aves, rosa clara.
Nada persiste além da chaga.
Seus instantes de amor, suor e toque, a enseada.
A solidão não une. Tudo nos separa.
Além do mar.
Negro, meu espírito recorda exílio prolongado.
O golpe solar não muda esta noite, minha pele.
Todo nome é grave e transfigura.
Só posso oferecer esta noite, e mais nada.
A morte eclode em cada verso. Nudez necessária.
E só posso oferecer isto: o sonho primitivo
dos corpos sem busca. A mágoa.
Renuncio ao amor, pois sou precária.
Outros amantes espalham gemidos pela casa.
São todos comuns em seus homicídios e meias-verdades.
Uma vez foi dito: é para sempre. Ao meio-dia, uma vez e basta.
O espelho sempre nos mostra o que nos falta.
Mesmo esta paisagem sucumbe em seus vocábulos.
É belo naufragar entre os meus lábios.
Renuncio a ti, amor, pois sou precária.
Além do mar, um país sem nome me aguarda.

5.6.08

Andréa Catrópa


Andréa Catrópa nasceu em São Paulo, em 1974. É mestre em Teoria Literária, co-editora do jornal de literatura O Casulo (http://o-casulo.blogspot.com/) e atualmente coordena a série de programas de rádio sobre poesia contemporânea Ondas Literárias (http://ondasliterarias.blogspot.com/).
Legítima defesa

o que eu quero é incomodar. dependendo do ponto-de-vista, há criaturas que só vivem para isso: a ferroada, o desconforto, o mal estar. entenda minha intenção. este é só um carinho diferente, talvez inverso. não sou tímido o bastante para me calar. as palavras rumam para a boca como um exército de formigas. furiosas. espalham-se, deleite precoce. e o arrependimento é igualmente curto para que eu me esqueça e repita tudo como da primeira vez. como se os deuses tivessem ressuscitado para me dar uma punição exemplar. as formigas. se não as liberto, é contra mim que se voltam.
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Fosso

desgosto de tudo
não sei se doença
a aura inversa das coisas
ilumina-se
em saturno
sonhos de chumbo
são mote e blecaute
fantasmas de fumo
abrem o cadeado da pele
penetram pelos poros
pulmões são cinza massa
encefálica medula óssea
e há sempre um lugar mais fundo
onde cavar

3.6.08

Renan Nuernberger

* Foto: Fernanda Serra Azul.
Poeta e estudante de Letras na USP (português/alemão). Recebeu o primeiro lugar, na categoria romance, do Prêmio Juvenil Ferreira de Castro (Portugal, 2005), pelo livro Adeus, Pasárgada e organiza sua primeira coletânea de poemas. Escreve no Esboço de Arte Poética (http://esbocodearte.blogspot.com) e coordena o blog O Casulo (http://o-casulo.blogspot.com).

Diamantes cravejados na garganta
Pigarra e cospe
(a voz) melodias
reluzentes.
O senhor engravatado e
a mulata faceira
tão brasil, bandeira,
assistem convictos
que é preciso
machucar-se (o artista).
Em pé (a cantora)
expõe orgulho
na garganta ferida
pelo público vale
tudo, esgaçar-se
inclusive.
Encerrada a audição
vão-se embora (todos)
sem remorso, sem
nenhum sentimento
expresso no palco:
fim do ato, aplausos.
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E não o contrário

mordiscadas entre dedos:
o risco de enganar-se
primeiro pelas unhas
(mastigar)
seguindo
ossos, sangue, órgãos
engolir-se por inteiro
esquecendo displicente
dos respingos nesta
página: morrer se
...........eternizar

alive-history
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