Maiara Gouveia
Maiara Gouveia nasceu em 1983, em São Paulo. Seus poemas e artigos sobre cinema e literatura estão espalhados em sites da internet, revistas e jornais. Em 2006, foi finalista do Prêmio Nascente, com o livro de poemas O Silêncio Encantado. A obra inaugural sofreu alterações e hoje se chama Pleno Deserto.
Mantém o blog A Certeza de Fazer o Mal (http://maiaragouveia.blogspot.com) e espera, ansiosamente, a publicação de seu primeiro livro: virá em breve.
Mantém o blog A Certeza de Fazer o Mal (http://maiaragouveia.blogspot.com) e espera, ansiosamente, a publicação de seu primeiro livro: virá em breve.
No Sumidouro
Ao redor do quarto
migra um cortejo de aves. Não vemos
pois estamos fechados.
Ao redor do quarto
um barco repousa em um mar sem ondas. Não vemos
pois estamos partindo.
Ao redor do quarto
baleias abertas e peixes mortos cobrem a angra. Não vemos
pois estamos sangrando.
Porque estamos sozinhos não vemos
suicidas engolfados nas brânquias tóxicas
dos cardumes. Não vemos
a morte solitária dos corais. Não vemos
a embarcação vazia permanecer
no silêncio das águas. Não vemos:
pois estamos no escuro.
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Outra Vez o Corpo
O fruto da bondade
não explodiu nesse solo rude.
Somos o Corpo e outra vez o corpo.
Animal divino que saqueia e fere,
cobre de lírios esse ventre estrangulado.
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Migrar
Matrimônio de vogais: agora nada.
Fica a distância entre o corpo e a palavra.
Sequer a marca do sol ou da sarça.
Faróis azuis na memória, e mais nada.
Além do mar, o tempo não traga.
Gaivotas mergulham sem regressar ao quadro.
Nenhum nome persiste além do enigma: migrar sempre.
E esta noite é tudo o que temos.
Toda palavra é precária: flor, pauta de aves, rosa clara.
Nada persiste além da chaga.
Seus instantes de amor, suor e toque, a enseada.
A solidão não une. Tudo nos separa.
Além do mar.
Negro, meu espírito recorda exílio prolongado.
O golpe solar não muda esta noite, minha pele.
Todo nome é grave e transfigura.
Só posso oferecer esta noite, e mais nada.
A morte eclode em cada verso. Nudez necessária.
E só posso oferecer isto: o sonho primitivo
dos corpos sem busca. A mágoa.
Renuncio ao amor, pois sou precária.
Outros amantes espalham gemidos pela casa.
São todos comuns em seus homicídios e meias-verdades.
Uma vez foi dito: é para sempre. Ao meio-dia, uma vez e basta.
O espelho sempre nos mostra o que nos falta.
Mesmo esta paisagem sucumbe em seus vocábulos.
É belo naufragar entre os meus lábios.
É belo naufragar entre os meus lábios.
Renuncio a ti, amor, pois sou precária.
Além do mar, um país sem nome me aguarda.
Além do mar, um país sem nome me aguarda.



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