Hay tomates!

Porque tem coisa nesse mundo.

31.3.09

Sobre aquelas lavas todas

Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro.
Todo o resto foi uma preparação.
A verdade é que sou inconstante,
com estímulos sensuais em muitas direções.
Fiquei docemente adormecida por alguns séculos,
e entrei em erupção sem avisar.


*** "Human nature", Miles Davis.

26.3.09

Intermezzo

Quase nunca faço isso, quer dizer, ler dois livros ao mesmo tempo. Fico confusa, sabem? Também porque esse procedimento interrompe meu processo compulsivo. Explico: quando o livro é muito bom, gosto de lê-lo, assim, numa tacada. Os últimos livros que foram alvo da minha mania compulsiva foram Amor, da Toni Morrison - lido em 3 noites (covardia! o livro é relativamente curto); PanAmérica, do José Agripino de Paula - lido em uma semana (tive que parar e me aprofundar em certos dados que o autor apresenta, dã!) e o terceiro e último foi O fio das missangas, do Mia Couto - livro fantástico, cujo trechinho deixo aí abaixo porque o cara é um monstro. Recomendo.
OBS: E pensar que um dia cheguei a achar que ele era ela. Mia? É, tal como a Mia Farrow, ex do Woody Allen. Ai, ai, essas meninas pouco sabidas...
Regressava a horas, entrava em casa pelas traseiras para não chorar ante os olhos sofridos de minha mãe. Minha fatia de tristeza era uma ofensa perante as verdadeiras e inteiras mágoas dela. Regressava depois do quarto, olhos recompostos, fingindo uma alegriazita. Minha mãe se apercebia do meu estado, desembrulho sem prenda. E me dava conselho:
- Sonhe com cuidado, Mariazita. Não esqueça, você é pobre. E um pobre não sonha tudo, nem sonha depressa.
COUTO, Mia. Meia Culpa, meia própria culpa. In: O fio das Missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 41.
*** "Não enche", Caetano Veloso.

23.3.09

Autofagia


Este post se auto-destruirá em 48 horas.




[Pronto, destruiu-se].





*** "Bluemoon", Michael Bublé.

19.3.09

O velho Wilde

Dante and Virgil in Hell, William Adolphe Bouguereau.

A melhor maneira de se livrar de uma tentação é render-se a ela.
Oscar Wilde.
[Hum, será?]
*** "My kinda love", Sarah Vaughan.

14.3.09

Constatação



Morremos daquilo que nos seduz.

*** "Na carreira", Chico Buarque e Edu Lobo.

13.3.09

Das coisas que não se lê (mas deveria)


Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todos os dia
Que morres no amor
Na tristeza
Na dúvida
No desejo.
Que te renovas todo o dia
No amor
Na tristeza
Na dúvida
No desejo.
Que és sempre outro
Que és sempre o mesmo
Que morrerás por idades imensas
Até não teres medo de morrer
E então serás eterno.

Cecília Meireles, Cântico VI.

E digo que a Cecilinha teve os seu Cânticos relançados por uma dessas editoras poderosas aí, que deram pra usurpar o sacro ventre dessas mulheres incríveis e publicá-los em livros como se fossem receitas de pudim de pão barato. Barato? Ah, é, mas nem isso os tais livros são! O IMS- Instituto Moreira Sales -, por exemplo, lançou um livro com a obra (quase) toda da Ana C. - todo rosa, como se ela precisasse disso pra ser sensacional! - e está cobrando a módica quantia de 70 Reais! Um abuso, não acham? Ainda bem que elas não precisam das lágrimas e das astúcias femininas todas pra serem mulheres talentosíssimas. Elas apenas são.
Aliás, nessa linha é-cor-de-rosa-shocking, a Ana Rüsche está ministrando um curso lá na Alceu. Apareçam: está rolando uma ginástica com umas "senhouras" bem incríveis e que permanecem intactas depois de terem tido o ventre igualmente usurpado por editoras e coisas malévolas assim, toc, toc, toc.
Au revoir!
*** "Dancing with myself", Nouvelle Vague.

6.3.09

Das coisas que se lê nas noites de insônia

Circle of Hell, Fred Cress.


Tenho que ter paciência para não me perder dentro de mim: vivo me perdendo de vista. Preciso de paciência porque sou vários caminhos, inclusive o fatal beco-sem-saída.
Marisa tem em si água e deserto, povoamento e ermo, fartura e carência, medo e desafio. Tem em si a eloquência e absurda mudez, a surpresa e a antiguidade, o requinte e a rudeza.
E assim sou, simples e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende.
LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida.
*** "Ways & Means", Snow Patrol.

3.3.09

Exercício anômalo - I

Unknown, Maggie Taylor
Não sei onde está. Respira, funga, tosse. Pulmão tumultuado, mãos embaralhadas. Come with me Come with me My babe. Tão tarde tão cedo, tão tão tão. Deixa-me, solta, livra-me das amarras. Não quero, quero você. Não, não quis nascer não. Não quis, respira. Afogo. Beija. Não solta, deixa. Fica. Vá pra casa, a chave, a chave, a chave. Fica não fica. Diz sim. As ruas mortas, tanto sangue. Tela escarlate, pulsando, febril. Fica! Não vá. Quero. Deixa-me viver. Afoga - é tanto gás, não respiro. Digo não solta. Vive, diz que fica. Então não digamos mais. Não quero você. Hoje ontem amanhã, depois. Fale você, diga. Eu não. Vamos, falemos, cuspamos. Vomite, você. Diga que sim, que não você. Respiro mais mais. Não mais.
*** "My funny valentine", Chet Baker.

alive-history
alive-history