Langston Hughes smells like teen spirit
Langston Hughes é um dos meus poetas favoritos. Descobri sua poesia no auge dos meus dezesseis anos, quando passei um mês em Los Angeles e decidi ir até Seattle conhecer o Nirvana e o grunge movement. Não me lembro exatamente como gastei, em um mês, quase toda a grana que havia economizado trabalhando como vendedora no ano anterior (talvez os impulsos de adolescente descobrindo a vida), mas resolvi que iria até Seattle de qualquer jeito.
Passei longos dezoito dias viajando naqueles ônibus da Greyhound cheios de gente estranha e trabalhava de garçonete e do que mais aparecesse quando o dinheiro acabava. Foi em uma dessas paradas forçadas, trabalhando como garçonete em um café em Carmel, que fui apresentada à poesia de Hughes.
O lugar ficava em uma paradisíaca cidade ao norte de L.A, com uma vista incrível para o Big Sur, e era freqüentado mais pelos moradores da cidade do que pelos inúmeros turistas que lotavam as ruas nos finais de semana.
Todos os dias, um senhor muito emburrado aparecia sempre no mesmo horário trazendo um livro sob o braço esquerdo e um chapéu engraçado na mão direita. Sentava-se à mesma mesa, olhava para mim e eu entrava e pedia um expresso com duas gotas de conhaque para Penny, a dona do café.
Nós dificilmente nos falávamos, mas tínhamos uma certa cumplicidade que tornava a comunicação eficiente apesar de econômica. Ele era um senhor distinto, professor aposentado de literatura norte-americana da UCLA, o que eu só saberia no meu último dia de trabalho.
Na época, meu cabelo enorme, sempre preso com um grosso pincel, e as camisas de flanela xadrez por baixo do avental verde certamente me davam um ar displicente. Obviamente, o compenetrado senhor não tinha o menor interesse em conversar com uma mocinha latino-americana mal vestida e em busca do "Smells like teen spirit". Da minha parte, eu tampouco queria atrapalhar sua leitura, seu café e sua aposentadoria.
Durante nove dias a cena se repetiu até que, no meu último dia, ele saiu mais cedo deixando uma gorjeta generosa e um livro sobre a mesa. Era uma quinta-feira calorenta e o café estava cheio. Só notei o livro depois, quando fui limpar a mesa para uns franceses que esperavam por ela.
Sem pestanejar, levei-o até a Penny e disse que o distraído senhor o esquecera. Foi então que eu soube que ele era professor e que morava na cidade desde que se aposentara.
No final do dia, depois que arrumei a tralha toda que trazia comigo, sentei com a Penny para conversar um pouco. Sentadas à uma mesa na calçada, ela pediu licença e disse que iria ligar para o professor para avisá-lo sobre o livro. Levantou-se, deixando o exemplar sobre a mesa. Eu aproveitei a deixa, examinei a capa e abri na primeira página. Foi então que notei a dedicatória para mim: "Young lady, this book will protect you from America. Have a nice trip".
Nunca soube ao certo como ele tinha descoberto que eu estava indo visitar o Kurt Kobain, mas o livro me protegeu mesmo da América. Tenho memórias maravilhosas dessa viagem, lia Hughes e olhava o Pacífico de dentro dos ônibus mal-cheirosos da Greyhound. 1995 é um ano difícil de esquecer.
Depois da explicação sentimentalóide acima, posto aqui um dos meus poemas favoritos do Langston Hughes:
I, Too, Sing America
I, too, sing America.
I am the darker brother.
They send me to eat in the kitchen
When company comes,
But I laugh,
And eat well,
And grow strong.
Tomorrow,
I'll be at the table
When company comes.
Nobody'll dare
Say to me,
"Eat in the kitchen,"
Then.
Besides,
They'll see how beautiful I am
And be ashamed--
I, too, am America.


2 Comments:
HEY TOMATOSA!
manu assim, a distancia, requeriria um mundo inteiro de explicações.... alias distancia é uma palavra que manu tem visto bastante.... ditanciamento, distancia segura.... distancia que legitima analise..... acho que eu me distanciei da manu justamente pra isso. Já que analista tá caro, faco analise da manu eu mesma...
besitos à tomatosa!
ah, girl - isso vai entrar para o romance, vai mesmo.
que história maravilhosa! nossa, carol, faz muito tempo que não arrepio assim. que criatura é essa?
beijinhos todos
sou uma mantegaderretida
Postar um comentário
<< Home