Enlouquecendo na era do jazz
"As pessoas são como os almanaques. Você nunca encontra o que procura, mas sempre vale a pena dar uma olhada." Zelda Fitzgerald.
A escritora e artista plástica Zelda Sayre Fitzgerald, esposa do "Great Gatsby" Scott Fitzgerald, era uma mulher sensacional. Pessoalmente, embora tenha uma inveja branca dessas mulheres meiguinhas e com ares de blasé, confesso que admiro mesmo aquelas cheias de personalidade, autênticas, sempre muito à vontade na própria pele. Talvez seja porque eu mesma tenha crescido muito perto de mulheres assim.
Apesar da esquizofrenia e do alcoolismo, Zelda era uma mulher muito à frente de seu tempo e debochava ruidosamente da alta sociedade norte-americana e francesa (os Fitzgerald viveram alguns anos na França). Mulher de personalidade fortíssima, costumava ser o centro das atenções nos eventos sociais muito mais pela excentricidade e pelo humor inteligente e ácido do que por ser a esposa de Scott.
Aliás, o casamento de Zelda com o escritor foi marcado por discussões, bebedeiras homéricas e ciúme doentio de ambas as partes. Scott a amava, mas não aceitava as opiniões sempre incisivas de Zelda, motivo pelo qual chegou a trancá-la por longos períodos no próprio quarto para evitar que ela se envolvesse em casos extra-conjugais, fato este muito comum no casamento dos dois. Ele também tolhia os dons artísticos de Zelda que, além de exímia pianista, era artista plástica e escritora.
Alguns dos biógrafos de Zelda afirmam que são dela trechos inteiros do livro de contos "Tales of the jazz age" e de outras obras do escritor, inclusive "The Great Gatsby". Sobre a suspeita de plágio, ela se manifestou uma única vez, em uma das inúmeras cartas trocadas com o marido durante os vários períodos em que passou internada em sanatórios.
"It seems to me that on one page I recognized a portion of an old diary of mine which mysteriously disappeared shortly after my marriage, and also scraps of letters which, though considerably edited, sound to me vaguely familiar. In fact, Mr. Fitzgerald — I believe that is how he spells his name — seems to believe that plagiarism begins at home.”
Zelda, enfim, era uma mulher incrível e que trouxe brilho para a vida de Scott Fitzgerald. Contudo, como Sylvia Plath, Zelda de certa forma foi sufocada pelas inseguranças e pelo machismo do marido.
Infelizmente, desde os longínquos anos 20, o universo masculino parece não lidar muito bem com mulheres passionais e decididas como ela. Zelda não era alguém superficial. Essa que aqui vos escreve não suporta pessoas e situações superficiais, daí o porquê da admiração por pessoas como ela.
Eu enlouqueço como a Zelda. Semanalmente. Todavia, enlouquecer não é mais nenhum sacrifício nesses tempos supostamente "pós-modernos", onde reina a volatilidade e a fragmentação. Definitivamente era mais divertido enlouquecer na era do jazz.
***Recomendo fortemente as músicas da Nina Simone, uma mulher igualmente fantástica. Atenção especial às essencias "Do nothin' till you hear from me", "My baby just cares for me", "Gimme" e "Just in time", esta última uma das minhas músicas favoritas.



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