Crying girl, Roy Lichtenstein.1. "Charles pega o queixo do narrador e deixa subir seus dedos magnetizados até as orelhas, "como os dedos de um cabeleireiro". Este gesto insignificante, que começo, é continuado por uma outra parte de mim; sem que nada, fisicamente, o interrompa, ele bifurca, passa da simples função ao sentido resplandecente, aquele do pedido de amor. O sentido (o destino) eletriza minha mão; vou rasgar o corpo opaco do outro, obrigá-lo (quer ele responda, quer se retire ou deixe ficar) a entrar no jogo do sentido: eu vou fazê-lo falar. No terreno amoroso não há acting-out: nenhuma pulsão, talvez mesmo nenhum prazer, nada a não ser signos, uma atividade tumultuada de fala: instalar, a cada ocasião furtiva, o sistema (o paradigma) da pergunta e da resposta."
PROUST, Marcel. O caminho de Guermantes.
2. "No incidente, não é a causa que me detém e repercute em mim, é a estrutura. Toda estrutura da relação vem a mim como se puxa uma toalha: seus dentilhados, suas armadilhas, seus impasses (assim como eu podia ver Paris e a Torre Eiffel na minúscula lente que enfeitava o porta-caneta de nacre). Não recrimino, não suspeito, não procuro as causas; vejo com temor a extensão da situação na qual estou envolvido; não sou homem de ressentimento, mas o da fatalidade.
(O incidente é para mim um signo, não um indício: o elemento de um sistema, não a floração de uma causalidade).
Às vezes, histericamente, meu próprio corpo produz o incidente: uma noite que eu seria como uma festa, uma declaração solene da qual eu esperava um efeito benfazejo, eu as bloqueio por uma dor de barriga, uma gripe: todos os substitutos possíveis da afonia histérica."
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos.
3. "Através desses julgamentos brilhantes, versáteis, subsiste uma impressão dolorosa: vejo que o outro persevera nele mesmo; ele é ele próprio essa perseverança, com a qual esbarro. Me desespero ao constatar que não posso deslocá-lo; o que quer que eu faça, o que quer que eu despenda por ele, ele não renuncia nunca ao seu próprio sistema. Ressinto o outro contraditoriamente como uma divindade caprichosa que varia constantemente de humor a meu respeito, e como uma coisa pesada, inveterada (essa coisa envelhecerá tal qual é, e é por isso que sofro). Ou ainda vejo o outro nos seus limites. Ou, finalmente, me pergunto: haverá um ponto, um só, no qual o outro poderá me surpreender? [...]"
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso.
4. "Como termina um amor? - O quê? Termina? Em suma ninguém -exceto os outros - nunca sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim da coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne o objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo nem mesmo se dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece quando e como se esperava). Esse fenômeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim minha história de amor: sou o poeta (o recitante apenas do começo); o final dessa história, assim como a minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam o romance, narrativa exterior, mítica."
BARTHES, Roland. Idem.
*** "Pois é", Los Hermanos.
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