Hay tomates!

Porque tem coisa nesse mundo.

28.5.07

O medo

* Le meute, 1969. Robert Doisneau.



Estou com uma gripe chatíssima há uma semana e parece que além de prejudicar meus pulmões, meu ânimo e minha já escassa paciência, também está atrapalhando meu cérebro. Resultado: nada de poemas por esses dias, até porque não ando bebendo (blaaaah!) e há sete dias não fumo (aê! será que dessa vez a disciplina vencerá a imbecilidade?).
Deixo vocês então com um Drummond fantástico enquanto a felicidade encapsulada que tomei essa manhã não faz efeito e ainda é difícil entender as idiossincrasias dessa cidade insana (ou a insana seria eu?).
O medo
A Antônio Cândido
"Porque há para todos nós um problema sério... Este problema é o do medo."
Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.
Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há árvores, as fábricas,
doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula a nos berça.
Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno.
De nós, de vós; e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas.
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
O medo, com sua física.
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando no baile do medo.
*** "Black eyed boy", Texas.


1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Prometo que chegando nessa terra insana (sim, ela é insana, mas nós tb, por gostarmos tanto dela) faço chazinho para a madrinha mais amada. E eu odeio essa palavra, medo. Além do significado, a própria sonoridade é fechada, fria, curta. Anyway, saudades.

terça-feira, maio 29, 2007 10:58:00 PM  

Postar um comentário

<< Home

alive-history
alive-history