O mundo de Alice
"The poet", Marc Chagall (1911).
Levando-se em consideração que a criatividade se tornou mercadoria rara nessas terras, haja vista que pessoas surtadas andam muito ocupadas praticando rituais autofágicos como triturar e deglutir os próprios dentes, os tomates decidiram picaretar mais um post só para fazer de conta que isso aqui ainda funciona, afinal, o que seria dessas mocinhas incautas se não fosse o mundo de Alice?
E por falar em Alice, é de bom alvitre citar que os tomates (e não as mocinhas) preferem experiências epifânicas com o Chapeleiro Maluco, preferencialmente durante uma cerimônia do chá, à previsibilidade morna dos coelhos, serzinhos desprovidos daquela sagacidade genuína que nos faria esquecer um pouco da avassaladora Síndrome de Sísifo que nos pega pelas pernas todas as manhãs.
Alienação? Imagina! Os processos alienantes da vida humana estão aí, foram edificados em estruturas atemporais e mistificadoras, apartadas dos processos sócio-econômicos concretos. Diante disso, é natural que nos lasquemos com esse monte de processos de dissociação cognitiva implantados nas nossas ingênuas cabecinhas desde o berçário. É por isso, aliás, que os tomates acreditam que o Chapeleiro tinha uma certa veia marxista, senão não teria bombardeado uma perdida Alice com um troço assustador desses: “Se você conhecesse o tempo como eu conheço, disse o Chapeleiro – não falaria em desperdiçá-lo como se fosse uma coisa. É um senhor.”
E chega dessa masturbação mental que os tomates andam passados, murchinhos como seus irmãos de final de feira. Porém, antes de se mudarem definitivamente para o Chagall aí de cima que, coincidentemente, chama-se "O poeta", os tomates deixam vocês com o excelente "Lisbon Revisited 1923", do Pessoa. Divirtam-se!
Não, não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.
Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
[...]
Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
*** "Save me", Nina Simone.



2 Comments:
Mas... hein?
Identificação total! Não me peguem no braço!
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