Hay tomates!

Porque tem coisa nesse mundo.

9.9.08

Apontamentos sobre o amor - I

O amor deve ser aprendido. O amor a si próprio, a responsabilidade e o cuidado com o seu próximo também devem sê-lo, mas Eistein disse um dia algo mais ou menos assim: é um milagre que o sistema educacional não tenha reprimido a sagrada curiosidade de questionamento, pois essa delicada planta depende muito da necessidade de liberdade, sem a qual ela se arruína e morre. Tenho que concordar, até mesmo porque sempre fui (e ainda sou, amém!) uma criatura curiosa, que dedica muitas e muitas horas do dia observando e tentando aparar incômodas arestas.
Nessas de overthinker, acabo percebendo muitas coisas e é sobre elas que pretendo tratar nesse e nos próximos posts. Melhor, pretendo discorrer sobre o que eu penso sobre o amor, esse sentimento que alguns imputam ser o cúmulo da breguice, mas que a mim parece ser tudo o que realmente importa para sermos considerados verdadeiramente humanos, no melhor sentido que esta palavra pode ter.
Pois bem, acredito que a maioria de nós nunca teve lições acerca do amor e, se as tivemos, muitas vezes as ignoramos. Em algum ponto estagnamos, daí essa massa de zumbis crescidos, solitários, alienados, perdidos, zangados, descontentes, etc, etc, que estamos tão acostumados a ver por aí e, quiçá, até façamos parte dela. Zumbis não sabem quem são, onde estão ou como chegaram. Não têm idéia de para aonde vão, como chegarão lá, nem do que farão ao chegarem. Não têm idéia do que possuem, do que querem, nem de como desenvolvê-lo. Se vocês não são um deles, um dia já foram e, se acham que não os conhecem, calma: certamente vocês foram ou serão vítimas de um deles algum dia!
Essas pessoas são, em essência, como robôs enferrujados, vivendo no passado, confusas no presente, como medo do futuro. Em momento algum elas foram apresentadas ao amor como um fenômeno que se aprende. O que aprenderam de amor foi de forma indireta, como um acaso. Sua maior orientação - e que provavelmente constitui-se no seu único aprendizado - foi recebida mediante os meios de comunicação de massa, que sempre exploraram o amor para fins nada bonitos. Certamente um grupo de poetas frustrados, apoiados pela Metro-Goldwyn-Mayer e pela 20th Century Fox criaram o amor romântico para o mercado mundial. Seu conceito de amor, em geral, não vai além disso: rapaz encontra moça, moça briga com o rapaz (ou vice-versa), o rapaz perde a moça, a moça e o rapaz se entendem por algum passe de mágica, casam-se e vivem felizes para sempre. Há algumas variações, claro, e as histórias dos irmãos Grimm e as novelas globais também têm seu quinhão nisso tudo.
No cinema, os clássicos do tempo da vovó, protagonizados pelo galã Rock Hudson e pela diva Doris Day, ilustram bem esse aspecto. Rock encontra Doris. Rock a corteja com atenção, flores, presentes, palavras doces e gentis, perseguições frenéticas e boas maneiras. Doris foge das investidas de Rock durante aproximadamente uns 4 rolos de filme, se não mais. Por fim, Doris não pode mais resistir e se entrega a Rock. Ele a carrega por toda a tela, rumo a um incandescente pôr-do-sol. The end.
Morro de curiosidade para ver o que acontece depois disso, mas não precisamos ser lá muito espertos para intuir. Qualquer moçoila do tipo da personagem que Doris faz, que fugiu de um homem durante 4 rolos de filme, certamente é frígida. Ou louca. Qualquer homem que se ocupou com tal absurdo deve sofrer de ejaculação precoce. Eles se merecem. E não é curioso como muita gente, talvez até eu e vocês, ainda procure se enquadrar nessa fórmula? Pior, muita gente se acomoda no the end e acha que tudo vai dar certo, assim, por milagre. Pior ainda, a maioria de nós, por não saber o que é o amor, pula fora ao menor sinal de que a aquela paixão avassaladora, tão típica dos inícios, vai se retirar. Beep, paixão é uma reação química que dura, no máximo, dois anos. Amor é outra coisa.
Reafirmando essa concepção maluca de amor, temos ainda esses anúncios de desodorantes (já repararam nas propagandas do Axe?), os antigos comerciais de cigarro, os anúncios de cosméticos, de carros, etc. Eles costumam dar a noção de que o amor 'acontece', em geral à primeira vista. A mensagem subliminar é: você não tem que batalhar pelo amor, afinal ele não precisa ser aprendido; você 'entra' no amor se seguir determinadas regras e 'jogar' de acordo com elas.
Não sei quanto a vocês, mas eu não gostaria (apesar de estar reincidindo no erro nos últimos tempos, seja por ingenuidade, seja pelo cinismo alheio) de dedicar o projeto de uma casa a um arquiteto que tenha precários conhecimentos sobre construção, nem aplicaria na bolsa com o auxílio de um corretor que não sabe nada sobre o mercado de capitais. Ainda assim, formamos relações amorosas - que esperamos invariavelmente que sejam permamentes - com pessoas que dificilmente têm conhecimentos sobre o amor. Igualam amor ao sexo, à atração, à necessidade, à segurança, ao romance, à consideração e milhares de outras coisas. Aviso aos navegantes, o amor é tudo isso e nada disso.
Na verdade, a grande maioria de nós nunca aprende a amar totalmente, até porque muitos sequer cultivam aquele amor latu sensu, por todas as criaturas; não as respeitamos; somos desleais, imaturos e egoístas. Muitos querem somente a satisfação imediata dos seus desejos. O resultado são os zumbis: representam no amor, imitam amantes, fingem, mentem, traem, desrespeitam, tratam-no como um jogo. Não é surpreendente, então, que muitos de nós estejamos morrendo de solidão, pulando de relação em relação tentando preencher um enorme vazio. Estamos tão ansiosos e incompletos, mesmo em relações aparentemente íntimas; buscamos sempre algo mais do que sentimos que deveria existir. Is it all that exists? , diz uma canção da Ella Fitzgerald.
Existe algo mais, sim. É simplesmente isso, o ilimitado potencial do amor dentro de cada indivíduo, pronto para ser reconhecido, esperando ser desenvolvido, desejando crescer. Se desejamos amar, devemos começar o processo de descobrir seu real significado, quais as qualidades de uma pessoa amorosa, o que é preciso fazer para desenvolvê-las.
Cada pessoa tem o potencial para o amor, mas ele nunca é percebido sem esforço. Isso pode se traduzir, muitas vezes, em sofrimento, mas digo que o amor é melhor aprendido na alegria e na paz. Vocês estão em paz? Nesse momento eu não estou, mas é que costumo optar pelo caminho mais pedregoso.
*** "Layla", Eric Clapton.

3 Comments:

Blogger Kaido said...

ish..tem muito comentario pra fazer... mas acho que tudo qeu voce fou sobre nossa relacao com o amor se aplica a tudo na nossa vida... conforme a física e o budismo bem sabem... acho que com relação ao amor é só mais um aspectdesse problema maior.. vide o poeta "antes de ser dois é necessário aprender a ser um"... depois conversamos ao vivo.adorei o texto... mas sempre fico com a pulga atras da orelha: sou ou nao zumbi?!

sábado, setembro 13, 2008 6:16:00 PM  
Blogger Bruno Cazonatti said...

Por onde andas, moça?
Olha, eu não posso falar nada, só me justificar, pois é tanta correria, tanta viagem, tantos "tanta" que não me sobra tempo para comentar nos blogs que mais admiro. Mas, espero que você não esteja zangada e saiba que, mesmo eu não deixando minhas pegadas nos espaços-comentários de seus textos-poemas, estou sempre lendo e saboreando cada letra.

Obs. Adorei este texto, moça!

Bjks
Bruno

quinta-feira, setembro 18, 2008 5:50:00 PM  
Blogger Anderson Fonseca said...

Cara Carol Marossi, é o Anderson adorei seu texto e peço se pode publicar no meu blog, OK? www.escritosdo-exilio.blogspot.com, muitos precisam ler isto, pois penso igualmente a vc.

quarta-feira, setembro 24, 2008 9:28:00 PM  

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