Diálogos II
São José do Rio Preto, 26 de dezembro de 2007.
Julinha,
Dezembro, vinte e seis. Hoje é o dia do seu aniversário. A vida caminha preguiçosa sob o sol modorrento deste sertão. Arrasto-me de um lado para o outro; impossível ficar mais do que dez minutos no mesmo lugar. Que calor inclemente! Que vidinha besta, meu Deus! Tanta coisa por fazer e eu aqui, tentando inutilmente ler algo em algum lugar não tão quente. Impossível. Até agora só li durante uma pescaria, antes do Natal, o que, por sinal, rendeu-me uma quase insolação. Fiquei vermelhíssima. Garanti o almoço natalino, porém: duas piaparas e uma tainha (risos).
Espero que a cidade cinza tenha se camuflado de azul no dia de hoje. Que você nunca desista da paixão, aquela fera que dorme com só um olho cerrado. A data do seu aniversário, entre as festas e logo após o solstício de verão, não é das mais agradáveis para receber presentes e marcar celebrações etílico-gastronômicas com os amigos- os poucos que porventura aí restaram. Sugiro, então, que marquemos uma festa, eu faço o bolo, no início de janeiro! Aliás, por que você não escolhe uma data alternativa para celebrar sua estréia nesse mundo, quati? Aniversariar nas férias é um tanto quanto melancólico, creio eu. Poderíamos, você, Ana e eu, escolher uma data somente sua: o dia intergalático da quati! Seria o máximo.
Pretendo voltar logo praí, isto é, se papai desistir de me amarrar no pé da mesa e parar de me acusar de desnaturada por deixar ‘a família’ numa data tão especial quanto o Ano-Novo. Sorrio irônica quando ele diz essas coisas! Tão marxista, crítico e, ao mesmo tempo, tão antiqüado quando se trata de mim- os pais e suas idiossincrasias.
No mais, estou muito compenetrada no meu pânico, como disse Ana C. Você sabe, lá de dentro andei tomando medidas preventivas, achei que tinha perdido a esperança de vez. Cultivava o meu silêncio em paz, mas eis que numa dessas rodas me aparece um certo alguém. Não tenho expectativas, visões futurísticas e não irei à nenhuma cigana tramar meu destino na palma da mão direita. Mas, nossa, como estou feliz! Que raridade me surge numa noite chuvosa, sem graça e cheia de exaustão. Despertei do meu ceticismo e voltei a acreditar em certas forças insondáveis que bem gostam de enroscar nossas trilhas. E tive provas disso em um desses finais de semana ensolarados e fantásticos que me permito ter vez ou outra.
Enfim, só posso crer que algo assim estava programado, ainda que não tenha vindo para ficar cimentado na minha calçada. Acho mesmo que esse alguém certo ficará como uma brisa persistente, dessas que sempre acontecem nos verões, mas que trazem com elas aromas, penugens e terras de outros lugares para iluminar as nossas vidas.
Fico por aqui, linda. Desejo honestamente que esses seus vinte e um anos tragam o bem que merece e providenciem outras cicatrizes que hão de torná-la cada vez mais especial e única! Amor maior que o além do infinito, você sabe. Sigamos caminhando juntas. A pista nos espera.
Muitos beijos.
*** "Paula e Bebeto", Caetano Veloso.


1 Comments:
... e o meu nunca veio...
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