Lembranças
Hortelã pouco macerada, falta açúcar. Reviro o cardápio sem razão: não há fome. Seus olhos saltam da contramão. Vontade de decepar sua orelha esquerda e embrulhar num Van Gogh. Garçom, é pra viagem. Mas Klimt se senta à mesa. Primeiro o beijo. Depois o abraço. La vida es un juego. Ella baila, baila sola, meu querido. Uma mulata fervendo o ar com descaso no seu tacho de cobre. E remexe. Silêncio. Vamos embora. Ele rasga o peito e perfuma meu sono até de manhã.


2 Comments:
Carola,
Das mocinhas da poesia que você disse, a mais potente é mesmo a Emily. Ela é um pilar - com sua singeleza e seus gestos leves - da tradição ocidental de poesia, todos sabemos.
Ela nos ensina, de pronto, pelo menos três coisas:
1) Não é preciso ter experiência de algo para saber algo, ou sentir algo (vide, basicamente, I never saw a Moor -).
2) Em conseqüência de 1), aprendemos que o contexto (histórico, social, antropológico - e todas essas baboseiras que querem vincular à poesia) é imensamente irrelevante quando o(a, neste caso) poeta é realmente poeta. Não adianta nem que eu aponte algum exemplo, pois em quase todos os poemas ela nos diz claramente isso.
3) A Emily nos mostra o que é ser poeta - sem as frescuras maiores que a contamporaneidade inventa - como as categorias de gênero, que, num efeito inverso (que acaba por desembocar num preconceito dos próprios defensores sobre o que defendem), consideram que mulher tenha de escrever confissões, coisinhas sensíveis, besteiras líricas etc.; ela, finalmente, mostra que a tal da literatura feminina é uma completa bobagem.
Mas... hoje em dia as pessoas mais se importam com o "sujeito" que com a obra; daí ficam estudando se tal "sujeito" é homem, mulher, homossexual, heterossexual, negro, branco, ..., e ainda (uma afronta!) querem nos fazer crer que isso tem tudo a ver com a obra - que se torna mero efeito dessa ladainha toda.
Bom, o restante não se fala. Para isso, em vez da fala, há a possibilidade da leitura da obra que a Emily deixou. E eu fiquei enfezado, risos, com a quantidade de péssimas traduções - que ignoram esquema rímico, métrica, maiúsculas, travessões, sentidos - que temos para o português atualmente, salvo exceções (Augusto de Campos e Paulo Henriques Britto; e o José Lira, em alguns casos).
Beijos, feliz Natal, muita saúde e paz mais uma vez, que é sempre bom, e literatura e projetos e essas coisas todinhas.
Não completei meu pensamento (me empolguei, risos): "fiquei enfezado (...)" e, então, resolvi começar a traduzir as peças dela.
Beijos!
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